ai, adeus!

Romance

Fausto Marsol ©

1ª Edição, Edições Salamandra, Setembro 2001 // Reedição, edição do autor, Outubro 2014

Preço de capa 15 € (portes para Portugal incluídos)

Disponível apenas por encomenda directa, através deste site.

Nota do Autor

O livro foi concebido como um todo, tendo-se procurado trabalhar continente e conteúdo,

de forma a criar uma unidade entre os vários aspectos.

A capa é uma reprodução, em sépia, de uma fotografia do autor.

Como Tiago, a personagem central, diz, uma fotografia fixa um momento, sem antes ou depois;

do mesmo modo, o romance procura traduzir o estado de alma de um homem de meia-idade, num dado momento.

Contudo, enquanto que uma fotografia é estática, os momentos humanos são dinâmicos

– com antes e depois – e sempre indissociáveis das emoções e sentimentos com que são vividos.

No caso, muitos e contraditórios.

A fotografia da capa, da Praia da Amoreira (Costa Vicentina), local referido no texto, cria a ilusão de distância,

embora, de facto, o actor esteja perto, ainda que podendo dar a sensação de que está em afastamento. Tal como Tiago.

Obtida numa fase avançada de declínio do sol, a imagem está cheia de claros e escuros (sombras),

que formam um emaranhado, notando-se ainda, em fundo, uma neblina.

Na fotografia pode divisar-se uma mulher a caminhar lentamente, sobre uma ponte de madeira,

acompanhada de crianças – duas como os filhos de Marta e Tiago -;

ora uma ponte é uma construção que evoca a ligação entre espaços (ou tempos), 

movimento este sublinhado no texto através de palavras - ou expressões - isoladas entre dois pontos finais,

que tanto podem ser ligadas à frase anterior como à seguinte, obrigando o leitor,

se estiver atento, a percorrer aquela ponte duas vezes, com o que as palavras ganham dois sentidos,

conforme sejam lidas ligadas à frase anterior ou à seguinte:

“há quinze anos também nós encetámos uma viagem. conjunta. tu e eu. enlaçados. por montes e vales e rios e mares.

descemos às profundezas da ternura. agarrados. subimos aos picos do prazer. caminhámos por veredas, junto de precipícios.

unidos, sem cair. visitámos grutas escuras, onde nos beijámos, fugidiamente. sem receios. atravessámos cidades,

tumultuosas, entre milhares de pessoas. sem nos largarmos. visitámos (…)"

Tiago, no momento em que decorre a acção (uma noite), questiona a sua relação com Marta, sua mulher, 

movendo-se, constantemente, entre o presente, o passado e o futuro - que procura antecipar.

A personagem central, alguém que se fez a si próprio, vai ao longo do texto deixando ver

algumas marcas do seu percurso e ascensão na vida.

Através de elementos diversos, cria-se no texto a sensação de que o leitor vai percorrer um caminho,

o que é induzido, por exemplo, pela construção do enredo do romance,

montado sobre um poema de Soares de Passos – sobrenome comum à personagem principal -,

cujas estrofes, isoladas, vão servindo de ponte entre os pensamentos de Tiago Passos

– e o livro mais não é do que um longo pensamento.

As estrofes servem também como separadores entre temas / assuntos / momentos,

criando-se assim, de algum modo, capítulos – ou melhor, pausas para o leitor.

O romance é como que um percurso, uma viagem das duas personagens ao longo do tempo;

não é, porém, uma viagem linear, simples e directa (ver referência, no texto, ao filme “The Stright Story”),

mas antes cheia de avanços e recuos e convites a incursões diversas,

desde por uma cidade, como Lisboa, até por uma peça de teatro, por exemplo.

Com a excepção da apresentação isolada das estrofes do poema, a que já se fez referência, o texto é todo corrido,

tendo ainda sido abolidas as maiúsculas, mesmo após cada ponto final,

com objectivo de não acentuar ainda mais a profusa pontuação

(não se lerá da mesma maneira uma frase que, após um ponto final, se inicia com uma maiúscula ou que segue com letra pequena).

De resto, como já foi dito, o texto traduz o pensamento do protagonista em palavras

– com pausas, mas sem diferenciação no tamanho das letras.

Com a forma do texto (construção frásica, pontuação, etc.), a maneira como enredo está tecido

e os diversos conteúdos apresentados procurou-se induzir no leitor uma forte vivência de emoções e sentimentos variados,

da raiva ao tédio, passando pela tristeza e pelo prazer.

Mais do que para ser apreendido cognitivamente ai, adeus! foi escrito para ser vivido emocionalmente pelo leitor

– conseguido ou não. - Fausto Marsol

Comentários

Regina Louro

Escritora e Crítica Literária

Estamos perante um livro surpreendente a vários níveis.

Parafraseando – talvez com excessivo à vontade – os surrealistas, um romance será novo ou não será. Este é novo.

Extractos do texto lido na sessão de Leitura Comentada de ai, adeus!, na Livraria Ler Devagar, em 03.07.2002

“Estamos perante um livro surpreendente a vários níveis. Surpreendente por se tratar de um primeiro romance, vindo de um autor que já não é propriamente um jovenzinho, a não ser pela juventude de espírito. Fausto Marsol não teve pressa em publicar, de se dar a conhecer como escritor, de chamar a si as luzes da ribalta, o que é uma raridade apreciável nos dias que correm. Este tacto permite-lhe revelar-se com uma obra plena de maturidade no conhecimento das relações humanas, e muito especificamente das relações entre os sexos, que é o assunto básico do seu romance.

Surpreendente por ter a servir-lhe de mote um poema de um autor português que praticamente já ninguém lê. Soares de Passos, e aquele poema de despedida. Numa época em que é de bom-tom – para ´fazer moderno` - citar Pessoa ou os seus heterónimos, colocar-se sob a égide de um poeta ultra-romântico e recorrer a um poema ultra-sentimental para desenvolver a acção de um romance, é um gesto temerário, um desafio aos códigos de bem pensar instituído.

Surpreendentemente, neste caso, o desafio resulta, a audácia compensa. A submissão ao poema de Soares de Passos e aos diversos momentos e movimentos, à letra e ao espírito daquele poema ´anacrónico`, serve admiravelmente para desenvolver uma história, que é uma história de sempre, do passado e do presente, talvez também do futuro, se no futuro ainda houver, e enquanto houver, qualquer coisa chamada amor.

A surpresa conduz-nos, assim, a territórios conhecidos, ao terreno da ´velha história`, a história de amor. Mas será este um território inteiramente conhecido?

O escritor é um escafandrista, e precisa de ser audacioso, aventureiro. Um romance é sempre uma aventura – mesmo por parte daqueles que já têm traquejo no ofício. Por maioria de razão, por parte daqueles que principiam. Parafraseando – talvez com excessivo à vontade – os surrealistas, um romance será novo ou não será. Este é novo – para o melhor e para o pior.

O melhor é análise de uma paixão em vias de morrer. Da ligação que estruturou essa paixão ao longo de quinze anos, tantos quantos dura o casamento de Tiago e Marta, encontrados nos anos oitenta e à beira de se separarem por inanição. Foi um grande encontro uma relação intensa enquanto durou. A princípio ambos imaginavam – como costumam imaginar todos os amantes – que seria para a vida inteira. Mas a vida – parafraseando outro – talvez seja demasiado breve para um amor eterno. Em suma, Tiago prepara-se para deixar Marta. A mornice para que descambou a relação não satisfaz as suas exigências de absoluto. Tiago é um perfeccionista – das coisas, das pessoas, dos sentimentos. Um perfeccionista e um alpinista – aspira a viver nos cumes, em êxtase permanente. O distanciamento de Marta, recolhida numa espécie de sono que o deixa de fora, abala as suas certezas e transtorna o seu modo de estar.

Tiago procura compreender o que falhou na relação entre ambos, outrora tão auspiciosa. Ao longo de uma noite de insónia, recapitula os passos dessa relação, comparando os momentos altos de antigamente com a baixeza do presente. Ainda é um homem novo, na casa dos cinquenta: tem um grande coração, uma inteligência viva e um pénis activo, magnífica aliança para uma meia-idade exaltada e exultante. Preenchida. O surpreendente – e aqui voltamos às surpresas – é que este tipo de sentimentos perante uma relação que se foi tornando frouxa costuma ser atribuído às mulheres. Costumam ser elas as exigentes, as absolutistas, ou, pelo menos, as zeladoras da paixão. Os homens – sempre segundo o ´costuma-se` - entregam-se a outras actividades (a profissão) e passatempos (o futebol ou por aí), deixam engordar o espírito e acomodam-se ao ramerrame do dia-a-dia. Este Tiago é diferente. Parabéns.

E Marta? Quem e como é Marta? Infelizmente, disso nada sabemos. Marta é uma imagem, um pretexto, uma âncora a que o homem se agarra para se analisar e revelar e seduzir o leitor. Marta é uma sombra, uma projecção, um campo neutro sobre o qual incidem, à vontade, as fantasias de Tiago, que, como narrador, pode fazer dela o que quer. Aparentemente, até faz muito. Reconhece os seus dotes, sobretudo de amante – ou de fêmea, como prefere dizer -, o que permite a descrição de intensas cenas eróticas, e tenta compreender, num derradeiro esforço para a reconquistar, o que se passa com ela que a afasta dele e a isola em paragens onde não consegue penetrar.

A apresentadora leu com agrado o seu livro tendo dele recebido alguns ensinamentos sobre o ego masculino. Mas achou-o insuficiente. Falta o ponto de vista feminino: falta saber o que pensou Marta naquela noite em que Tiago recapitulou a vida de ambos, como se fosse dono e senhor de uma vida a dois.

Gostei muito das suas receitas culinárias. São bem melhores do que as dos policiais, que nos habituaram a misturar ficção com gastronomia. Não se sentindo na urgência de apanhar um criminoso, o Sr. Marsol dispõe de todo tempo para apurar os seus cozinhados. O resultado é uma delícia. Resta-me uma pequena dúvida: o autor de tão sublimes preparos prefere comer ou ser comido? Não é irrelevante."

Fernando Venâncio

Escritor e Crítico Literário

A grande tentação de quem escreve um primeiro romance é contar o que foi, até aí, a sua vida.

Tu não fizeste isso. (...) : a riqueza de vida que ali descreves é tão diversa e abundante que não cabe numa só vida humana.

Extractos do texto de Fernando Venâncio sobre ai, adeus!, escrito para a sessão de Leitura Comentada na Livraria Ler Devagar em 03.07.2002

“A grande tentação de quem escreve um primeiro romance é contar o que foi, até aí, a sua vida. Tu não fizeste isso. E se o fizeste, enganaste bem. Pode ser que esteja ali realmente a tua vida (não te conheço o suficiente para tirar qualquer conclusão), mas a impressão que dás é a de que não está. Por uma simples razão: a riqueza de vida que ali descreves é tão diversa e abundante que não cabe numa só vida humana.

Que fizeste tu, então? Criaste abundância: de desejos, de emoções, de experiência, de gostos, de atitudes. Se sob essa florescência te escondeste a ti próprio, isso só a ti diz respeito. Para quem te lê, fica a certeza de ver abarcada ali a genérica da alma humana, pelo menos a portuguesa. Por isso lhe chamei ´o livro de tudo`. No criar dessa impressão, foste inteligente, astuto mesmo. De cada vez que estendes o olhar por sobre uma qualquer totalidade (sirva de exemplo a culinária), é como que inadvertidamente que o fazes. Nunca anuncias: vem aí uma ´totalidade`. E, quando já se entrou nela, tu sabes dosear, com uma inocente finura os materiais, introduzindo aqui e ali um aparte, uma variante que quebram e relançam o ritmo. O teu domínio da expressão atinge, aí, um nível deveras convincente. (…)

A utilização que fazes do poema de Soares dos Passos foi um excelente achado. Funciona como se alguém já tivesse passado pelo mesmo, e o teu romance não fosse senão a actualização de antigos estados de espírito. Além disso, Soares de Passos não é um qualquer. É um artista de finíssimo tacto, que só derrapou no ´Noivado do Sepulcro`. É com o melhor da linguagem dele que medes a tua, e vocês saem os dois a ganhar.

Receei, ao começo, que o teu romance derivasse para o género ´manual de auto-ajuda`. Sempre haveria, nisso, uma marcada busca de intervenção, da tua quase necessidade de mudar o mundo para bem, do teu lado missionário, da tua (termo teu) ´militância`. Foi com alívio que constatei ficares longe disso. Se no primeiro terço do livro os alçapões da alma humana te atraem, cedo vês, e anuncias, que há mais mundo.

Meu caro Fausto; gostaria de estar contigo, convosco, esta noite na Ler Devagar. Mas a minha vida é aqui, longe do Bairro Alto e suas solicitações, suas oportunidades também. Confio em que, com estas ideias avulsas e sinceras, estarei também um pouco presente. Desejo para ti, e para os teus amigos, um serão descontraído e salutar. Falando-se de literatura, a descontracção e a saúde estão, à partida, garantidas. Divirtam-se, pois.

Um abraço do Fernando Venâncio"

Júlio Conrado

Revista Boca do Inferno

O que significa viver a dois?

“O que significa viver a dois?, interroga-se Tiago, o protagonista de ‘ai, adeus!’, narrativa de Fausto Marsol, no momento em que se vê a meio do caminho, do caminho para a morte, inevitável. Escrita emocional, formalmente cuidada, é a desta obra de um psicólogo clínico que conta uma paixão nas suas fases de florescimento e declínio. Girando à volta do eixo relacional homem-mulher, a ficção absorve um leque variado de temas da nossa contemporaneidade, sobretudo os relacionados com os gostos intelectuais das classes médias mas também com os seus hábitos quotidianos. Prevalece, em todo o caso, a história de amor, pujante de prazer e de dor como todas as histórias de amor, servida por um estilo harmonioso, amadurecido e até, nalguns aspectos, bastante inovador. Um livro revelação cuja leitura se recomenda.”

Rúben F. Coelho

leitor

Poucos livros deixam uma primeira impressão tão forte quanto  ai, adeus!  de Fausto Marsol.

“Poucos livros deixam uma primeira impressão tão forte quanto ai, adeus! de Fausto Marsol. Em primeiro lugar, porque estamos perante um livro com um estilo e uma estética invulgares. Inteiramente escrito em minúsculas e sem parágrafos, ecoando a obra Rumor Branco de Almeida Faria (de notar que o próprio Tiago, personagem principal e narrador do romance, se refere positivamente a este autor: 'detivemo-nos depois mais em almeida faria e lídia jorge, dois dos meus favoritos'. (Pág. 150). Só que se Almeida Faria faz algumas concessões à regra, mantendo as maiúsculas nos nomes próprios e nas toponímias, Fausto Marsol não o faz e vai ainda mais longe, chegando ao ponto de nem sequer recorrer a capítulos. Mas nesta tentativa de descrever a obra do ponto de vista estilístico, ninguém o faz melhor que o próprio autor, pela voz de Tiago: 'se fosse escritor, que digo?, que pretensão!, ser escritor é muito mais do que isso! se tivesse jeito para escrever, para ao menos ser um bom contador de estórias, com e e sem h, para não se confundir, havia de ensaiar escrever um livro todo seguido. o leitor que parasse onde quisesse, quando quisesse, ao seu ritmo. (...) um livro sem capítulos, sem uma estória lógica do princípio ao fim, com introdução, desenvolvimento e epílogo.” (Pág. 72) Fausto Marsol escreveu o livro que Tiago gostaria de ter escrito.

Ainda no que toca a eventuais influências literárias, convém invocar Saramago, escritor a que também se faz várias vezes referência ao longo da obra. Principalmente pelo modo como se insere o discurso directo por entre o discurso indirecto. As referências, no entanto, não se esgotam aqui. No que é também mais uma marca invulgar num romance, são várias as referências directas a escritores e aos seus livros, peças de teatro e companhias de teatro, filmes, pintores, escultores, bailado, música – desde o fado, à música clássica, passando pela música popular portuguesa e pelo jazz -, fotografia, recordando outra das paixões de Fausto Marsol, e de notar que aquela que ilustra a capa desta obra é da sua autoria. De facto, não parece ter havido nenhuma expressão artística que tenha ficado por mencionar. E estas largas dezenas de referências podem servir vários propósitos. Além de caracterizarem de forma muito completa a personagem – haverá algo que melhor nos defina do que os nossos gostos e interesses? – ajudam a criar uma enorme empatia com o leitor, sobretudo quando nesse universo existem referências que nos são comuns, facto que nos faz sorrir ao longo da leitura da obra. Mas mesmo quando não conhecemos essas referências, é como se o autor nos convidasse a conhecê-las, e neste caso o livro funciona como um guião, um roteiro para novas descobertas. Que não se esgotam na cultura. Mas que passam também pelos locais, desde livrarias e bibliotecas, ruas, praças e jardins, naquilo que é uma enorme declaração de amor à cidade de Lisboa. Mas também a outros destinos, tanto dentro de Portugal como para outros países, outras culturas. E ainda restaurantes, com sugestões de pratos específicos, ou receitas, para fazer em casa.

Estas referências acabam também por situar a obra num tempo e num espaço muito específicos. Seja através da evocação de acontecimentos marcantes, como o massacre de Timor e a resposta solidária dos portugueses, como a mera menção a locais que já não existem. Pelo menos da mesma forma como estão descritas. 'seguimos pela longa marginal, tão mal aproveitada, até ao terreiro do paço. pena não ter esplanadas e animação. não seria a praça de são marcos, mas podia aproximar-se.' (Pág. 192)

Mas se todas estas referências marcam a obra num contexto social determinado, ajudam também de igual forma a imprimir-lhe um carácter verdadeiramente humanista. Não só devido à importância que se dá às artes - que são o expoente da expressão, da criatividade e do pensamento do homem sobre o mundo -, mas também pelo próprio raciocínio de Tiago, pelas suas posições de princípio, pelas suas linhas argumentativas, pela sua crença no livre arbítrio, na capacidade do homem tomar decisões e de actuar sem quaisquer condicionamentos transcendentais. Tiago pensa sobre os comportamentos das pessoas, sobre as suas acções e consequências, e constrói a partir daí uma ética sem moralismos. 'a qualidade de uma decisão, não pode ser julgada no momento em que ocorre, mas no tempo subsequente. mais: as decisões em si não são boas ou más, são necessárias. muitas vezes, tangenciais. o que fazemos a seguir é que as torna boas ou más. e são duas coisas diferentes, dois processos diferentes: o que conduziu à necessidade de tomar uma decisão e o que conduzirá as coisas a partir desse momento' (Pág. 130)

Há ainda uma fé inabalável nas potencialidades humanas, na recusa de qualquer pré-determinismo: 'é fantástica a capacidade que as pessoas têm, que desenvolvem. não penso que se nasça assim, trabalha-se. potencialmente, creio que todos podemos ser tudo. ou quase. ninguém nasce atleta, ou músico, actor escritor, torna-se.' (Pág. 62) E se tivermos ainda em linha de conta que o humanismo iluminista cultivava o saber enciclopédico, não deixa de ser curiosa a confissão de Tiago: 'sou um generalista, simples. sei pouco de muito e muito de nada.' (Pág. 117)

Podemos, por tudo isto, dizer que Tiago é um humanista. Mas mais importante que isso, é a sua humanidade.

 ai, adeus! é um livro onde os afectos, os sentimentos, têm a maior centralidade: 'a capacidade humana de amar é inesgotável. o espaço dos afectos é infinito' (Pág.131). É a história de uma relação entre duas pessoas, uma história de amor e de desamor, na qual todos nos podemos rever. Percebemos a importância da sensualidade, da carnalidade. Entendemos as expectativas e como isso leva a ilusões e a desilusões. Compreendemos o significado do silêncio e o sentimento de solidão, mas também da comunicação e da cumplicidade. Acompanhamos o Tiago ao longo de toda a obra, numa autêntica montanha-russa emocional, e interrogamo-nos sobre o que queremos afinal da vida, e o que esperamos de uma relação. E por tudo isto, ai, adeus! é uma obra inspiradora." - Extractos da apresentação da obra, no lançamento da sua reedição, na Livraria Ler Devagar, em 26/10/14

Fernanda Marques,

leitora

Gostei da organização do texto à volta do poema de Soares de Passos, que lhe serve de mote e lhe confere unidade. Pareceu-me interessante que o narrador se tivesse servido dos versos do poema para nos dar conta da evolução do seu estado de espírito.

“Não pude recusar o convite e por isso aqui estou, para vos dizer por que acho que devem ler ai, adeus!. Conheci a obra em 2009. Lembro-me que mal cheguei a casa a comecei a ler e me entusiasmei de tal forma que não descansei enquanto não cheguei ao fim! Na altura, li-a com sofreguidão: era algo diferente. Agradou-me muito, conteúdo e forma.

Gostei da leitura corrida, da pontuação desusada, das metáforas e das imagens cheias de cor, de movimento, de emoção.

Gostei da organização do texto à volta do poema de Soares de Passos, que lhe serve de mote e lhe confere unidade. Pareceu-me interessante que o narrador se tivesse servido dos versos do poema para nos dar conta da evolução do seu estado de espírito, à medida que ia avançando na sua conversa com Marta.

Gostei da forma como surgem as referências culturais do nosso tempo: na sua ‘conversa’ com Marta, Tiago recorda locais que visitaram, eventos em que participaram, divagando, por vezes, até à origem etimológica de alguns nomes, ao passado mais remoto de locais e de personagens, sempre usando um tom coloquial e uma linguagem rica e plurissignativa, onde a ironia ocupa um lugar muito importante.

E gostei da estória… Tiago é dono de uma sensibilidade que não é comum nos homens.

Encantada com obra, não pude deixar de cumprimentar o autor e de lamentar que esta não se encontrasse disponível no mercado. E durante estes anos fiquei na expectativa da reedição. Finalmente, há uns meses, fui surpreendida pela notícia de que ai, adeus! estaria em breve de novo disponível. E mais surpreendida fiquei com o convite para falar sobre a obra, na perspectiva de leitora. Fiquei tão honrada, que aceitei de imediato.

Dispus-me então a reler ai, adeus!, desta vez com outro cuidado, sem pressa, tomando notas, sublinhando… E foi com imenso prazer que fiz, de novo, a viagem com o Tiago…

Compartilhei com ele a lembrança do preconceito em relação à sexualidade que vivemos na infância e adolescência. Revivi o momento sublime de ser mãe ao acompanhar o nascimento da Rita.

Percorri com ele muitas ruas e recantos de Lisboa. Senti o Tejo, ouvi Fausto, Sérgio Godinho, Maria João e Mário Laginha, assisti à Castro, fui ao cinema…

Revi-me nos seus pontos de vista sobre o aborto, as crises nos casamentos, os filhos de pais separados…

Identifiquei-me com a forma como Tiago se liberta da relação com Marta sem traição, mas antes com frontalidade: ´sinto, marta, que descomunicamos, desconseguimos, desvivemos.` (pg. 146).

Deliciei-me com a descrição daquele jantar a dois: o vinho, o prato principal, a sobremesa… E depois acompanhei-os no passeio por Lisboa, e espreitei-os na intimidade…

Apreciei e diverti-me com momentos de análise de comportamentos comuns, que todos nós conhecemos. Como este: conta ele que um jovem yuppy conhecido pelo nome de Pilú, ´bonitão, tipo richard gere, com gel e tudo, andou, como se costuma dizer, a criar a mulher à mão. começou a namoriscá-la quando ela tinha apenas catorze anos. esperou que ela fizesse dezoito e o décimo segundo ano. casou com ela e trouxe-a para lisboa, por onde ele já andava há muito. fez-lhe duas filhas e enfiou-a em casa, pouco crente, por experiência própria, na bondade do mundo. quando as meninas foram para a escola, a jovem foi trabalhar. ingénua e pouco vivida, encontrou um coleccionador. creio que o coleccionismo deve ser inerente à condição humana. toda a gente colecciona alguma coisa: (…) aquele coleccionava casadas. recitou-lhe quadras de amor, eterno. cantou-lhe, como antes se dizia, a canção do bandido, em que ela acreditou. comovente! mas quando o romeu sentiu a coisa a ficar apertada, deu à sola! primeiro que era por uns dias para ter a certeza que. depois teve a certeza. que não, claro!’ (pgs.142/3)


Mas não quero alongar-me, por isso vou terminar com a bela metáfora da viagem, da vida a dois que Tiago recorda:

‘há quinze anos também nós encetámos uma viagem. conjunta. tu e eu. enlaçados. por montes e vales e rios e mares. descemos às profundezas da ternura. agarrados. subimos aos picos do prazer. caminhámos por veredas, junto de precipícios. unidos, sem cair. visitámos grutas escuras onde nos beijávamos, fugidiamente. sem receios. atravessámos cidades, tumultuosas, entre milhares de pessoas. sem nos largarmos. visitámos museus, de salas imensas, ao mesmo ritmo. trocando olhares. caminhámos por jardins e campos sempre de mãos dadas. fomos para longínquas paragens exóticas. sem nos perdermos. navegámos por águas revoltas. sem nos afundarmos. fomos apanhados no meio de tempestades sem que o medo nos invadisse. porque estávamos juntos, tu e eu. mas sinto que já não vamos mais: chegámos. prosseguirei sem ti. seguirei viagem. a viagem.

não sei mesmo, não sei, se o destino me dará que te abrace na volta… ai, quem sabe onde a vaga revolta levará meu perdido baixel.

reaprenderei a viver, mais experiente agora.’ (pg. 100)


Termino com esta mensagem de expectativas positivas para o futuro dos que, numa fase já adiantada da vida, têm a coragem de recomeçar, de encetar outras viagens…E recomendo vivamente a leitura de ai, adeus!: acreditem que vão gostar, muito!!!

Obrigada, Fausto Marsol, por ter criado esta personagem que nos ajuda a reflectir sobre a vida, as pessoas… Parabéns pela criatividade estética, pela emoção que soube imprimir ao texto, pela profundidade das reflexões sobre a paixão, o amor, as relações.

Ficamos à espera de mais estórias! - Extractos da apresentação da obra, no lançamento da sua reedição, na Livraria Ler Devagar, em 26/10/14

I. Ribeiro,

leitora

É, também, um manual de amor, de paixão, de erotismo e, ainda, um roteiro de percursos, leituras, culinária.

As ideias, os factos, vão surgindo, entrecruzando-se, tal como quando paramos para pensar, para fazer o balanço de uma vida.

“Em ai, adeus! encontramos reflexões, interrogações, perturbações, inquietações, vividas por alguns de nós. É, também, um manual de amor, de paixão, de erotismo e, ainda, um roteiro de percursos, leituras, culinária.

As ideias, os factos, vão surgindo, entrecruzando-se, tal como quando paramos para pensar, para fazer o balanço de uma vida. A forma do texto procura transmitir a confusão que vai no interior da personagem, os avanços e paragens do seu pensamento, do seu sofrimento. Daí a pontuação. Daí tantas vezes bastar uma palavra para transmitir tanto

sentimento. ai, adeus! é, acima de tudo, um livro de emoções. Tudo é narrado com muita sensibilidade, intensidade, principalmente no que se

refere ao amor que vemos atingir o clímax. Através do olhar do narrador, do seu sentir aromas e sons, entendemos as emoções, a força desta paixão, que vemos crescer, atingir o auge e depois declinar.”

F. C.,

leitor

(mensagem privada via facebook)

É mesmo um dos meus livros preferidos, a par de outros de Vergílio Ferreira e Clarice Lispector (os meus autores favoritos).

“(…) não resisti! Eu adorei o seu livro ai, adeus! Já o li imensas vezes, está todo sublinhado e comentado. Comprei várias exemplares que ofereci a várias pessoas. É mesmo um dos meus livros preferidos, a par de outros de Vergílio Ferreira e Clarice Lispector (os meus autores favoritos).

Lembro-me tantas vezes de várias passagens do livro: a descrição de Lisboa - a observação sobre a obra de Cutileiro no Parque Eduardo VII é tão certeira! -, as dúvidas e questões do narrador, os autores invocados, o poema que dá o mote e o título ao livro. Fantástico!

E pronto. No fundo, o que lhe queria dizer é: obrigado!”

A. D. P. Rodrigues,

leitor

O enredo e o tema em si estão bem conseguidos e são actuais, apesar de o romance ter já 15 anos (1ª edição).

O erotismo a que expõe o casal reproduz, com autenticidade, uma realidade humana que inquieta muitos cônjuges e que os leva ao auge da vivência conjugal, mas também os pode levar ao fosso, sendo, muitas vezes, o produto da falta de diálogo, como muito bem o refere.

“Gostei imenso! O enredo e o tema em si estão bem conseguidos e são actuais, apesar de o romance ter já 15 anos – 1ª edição.

O tema é um retrato fiel da nossa sociedade. Faz uma profunda análise psicológica dos casais, referindo, para além dos dois personagens principais, casos laterais, que Tiago, personagem central do romance, vai evocando, pelo conhecimento que tem de casos de amigos ou de conhecidos.

O autor faz uma análise a vários casais, com as paixões e os declínios das relações. Reflecte sobre o percurso conjugal, os sentimentos, as reacções, as atitudes, as emoções, os avanços e recuos conjugais.

Até o aspecto sexual não foi descurado! O erotismo a que expõe o casal reproduz, com autenticidade, uma realidade humana que inquieta muitos cônjuges e que os leva ao auge da vivência conjugal, mas também os pode levar ao fosso, sendo, muitas vezes, o produto da falta de diálogo, como muito bem o refere.

Dou-lhe os parabéns pela ousadia e pela coragem de se lançar nesta aventura e teimar numa nova edição, o que me apraz significativamente, já que me permitiu tomar contacto com esta realidade.”