Mutações (1)


Nota do Autor

“Se há coisa que caracteriza a realidade é a sua capacidade de escapar aos nossos olhos e

aos nossos sentidos todos.” J. Pomar

Mutações (I) ganhou consistência e cresceu a partir das paisagens mentais que as doenças

que me assolaram me ofereceram, tendo o projecto sido iniciado numa enfermaria do Hospital de S.ta Maria.

Mesmo não se deixando levar pelas enfermidades, as vivências pelas quais se passa provocam mudanças,

deixam lastro – felizmente, este, facilitador de novas viagens.

Segundo o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, por “mutação” deve entender-se

“acto ou efeito de mudar(-se); alteração, modificação, transformação” - seja na forma seja na essência.

Mutações (I) será assim um reflexo das transformações que em mim se operaram,

a par de um exemplo da capacidade do homem intervir numa dada realidade modificando-a.


Como nos seres vivos, a possibilidade de se operarem transformações numa qualquer realidade

é virtualmente infinita; mas, na vida natural, apenas se fixam as que se revelam benéficas

- isto é, aquelas que acrescentam valor à realidade mutada, o que só a interacção com o meio determinará.

No caso vertente, o público a quem for dado contactar com as obras, seja através de comentários

seja através da aquisição de peças que ornamentarão os espaços em que se movem.


A ideia que temos, normalmente, da fotografia, é que esta deve espelhar, mais ou menos fielmente,

uma dada realidade – cujos registos até são obtidas através de um jogo de espelhos -,

como se fosse um processo de captar e reproduzir imagens fiéis de um qualquer motivo num dado momento particular.

É – ou continua a ser – isto, mas a arte fotográfica não se esgota aí. Particularmente, estou mais interessado em criar realidades novas

do que em reproduzir “realisticamente” as existentes – com maior ou menos encenação e edição.

Gosto da ficção, da fantasia, do jogo com estruturas, linhas e cores, da ilusão

– a partir de uma realidade-mote. Neste sentido, a minha arte talvez se aproxime mais da pintura do que da fotografia (clássica).


Nenhuma arte é estática – pode ser estática -, antes evolutiva, transgressora,

desbravadora de novos caminhos – que às vezes não se escolhem: mais nos convidam a percorrê-los.

Como foi o caso.

Embora possa não parecer, em Mutações (1) estamos perante fotografias ou, se se quiser, melhor, fotos-arte.

Embora possa não parecer, há ramos, folhas, flores… há vida nos motivos do meu olhar,

registados digitalmente e posteriormente trabalhados.

Ao longo de sucessivas mutações, operadas através de programas de edição,

a fotografia original vai ganhado novas configurações e coloridos, ao gosto e sensibilidade do autor,

até ao momento em que considero ter criado uma imagem peculiar digna

de uma identidade autónoma – que fixo, catalogo e assino, como se de uma pintura se tratasse.

Ilusão esta reforçada pela impressão das Opus em tela.


O nosso olhar sobre uma dada realidade, é, no geral, bastante estereotipado – pré-formatado –

e, naturalmente, sempre limitado. Raramente se consegue ver de uma forma “pura”

– sem antes -, por um lado e por outro, raramente se consegue ver para além do imediato, do aparente visível.

O nosso olhar é sempre – e necessariamente – parcelar: o que apreendemos resulta de uma leitura particular do que vemos.

Em todas as Opus que constituem Mutações (1) está a estrutura original e os elementos de um dado “corte” da realidade,

transmutada; numas será mais claro, noutras bastante mais difícil a identificação da imagem-fonte.


Mutações (1) assume-se como um projecto essencialmente estético.

À medida que fui amadurecendo e crescendo como pessoa, fui percebendo que há duas dimensões

basilares na vida: a – muito falada e pouco praticada - ética e a estética;

duas dimensões essas que, na prática, parecem estar a perder força – socialmente e mesmo ao nível da arte.

Parece estar fora de moda a arte preocupar-se com a estética, com a dimensão estética

dos trabalhos – tenho pena. Como escrevi algures:

“Entre cada maré só o que tem peso e consistência permanece, tudo o resto é tragado pela voragem das

sucessivas ondas.” E é isso que creio que acontece com a estética:

é um valor permanente, malgrado as ondas que por aí aparecem.

Quanto à ética, talvez a pudéssemos reduzir até a uma estética atitudinal – ou mesmo de vida.

“Isso não foi bonito, pá!” – é do senso comum saber o que é bonito ou não. Mas

senso comum não quer dizer, necessariamente, prática comum.


Neste trabalho procurei intervir numa dada realidade e transmutá-la noutra, de uma outra beleza

– essa é a minha convicção –, mantendo a estrutura original.

Sem uma dimensão estética a vida torna-se bem mais pobre; espero que este conjunto de obras,

que reuni sob a designação de Mutações (I), colha aprovação.


Novembro 2015

Reportagem da TV Douro sobre a inauguração da Exposição no

Museu Diocesano de Lamego

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